Imóvel: o ponto de apoio

O primeiro pensamento que me atravessou a cabeça quando me falaram no tema
de escrita foi “o que tem o c… a ver com as calças?”.

No entanto, fazendo um paralelismo com uma afirmação que faço repetidamente nas minhas aulas, em que afirmo que mesmo só para pensar o homem pode dispensar tudo menos o ponto onde se apoia, lembrei que, por mais kama-sutriana que fosse a posição do amor, sempre haveria a necessidade do tal ponto de apoio e assim se justificaria a presença de um imóvel no acto.

A sabedoria popular diz que para ser feliz basta “amor e uma cabana”, desvalorizando assim as características do imóvel em que a relação se desenvolve.

Por outro lado, diz que “quem casa quer casa”, sendo que o imóvel aparece aqui numa designação mais sólida, fazendo o acto de casar uma subida naquilo que os ingleses chamam de escada da propriedade. Depois, uma página da net prendeu a minha atenção : “Mais que um lar, um legado de amor!”. Isso mesmo, a página de uma agência de corretores, prometendo vender legados de amor. E assim, o imóvel, que já vimos corporizar a paixão trágica dos amores de Carlos e Eduarda, a luxúria de Emma ou o amor divino de Mateus, passa a ter uma dimensão mais afectiva, de transmissão de amor para as gerações vindouras. Amor rima com Valor. Parece que é apenas de hoje a preocupação de transmitirmos um imóvel em bom estado, cujo valor represente o amor que temos por aqueles que nos sucedem, mas tal não é verdade.

A preocupação dessa transmissão é fortemente enraizada na nossa cultura; apenas que antes estava circunscrita aos imóveis particulares e hoje se começa a ganhar consciência sobre os espaços exteriores ao meu imóvel, que unem aos outros, seres e imóveis, e que no seu conjunto formam a Terra. Mas, qual o valor que o amor transmite? O que hoje construímos com afinco, para transmitir como prova do nosso amor, está prenhe dos valores que hoje temos e que queremos que os futuros guardem. Os campos com mina de água, os pinhais, que alguns felizardos (?) receberam dos seus avós representam valores passados, como passados serão os valores dos imóveis que hoje vamos criando e acumulando, nessa tentativa de deixar uma forma resistente ao tempo de transmitir o nosso amor. Uma prenda quando se dá… deve representar o gosto de quem a dá ou de quem a vai receber? É esse sentimento de perenidade que o imobiliário encerra que o transforma num mercado de investimento que incorpora uma maior dose de emoção que os outros investimentos.

Afinal, um imóvel é um espaço em que eu posso amar e, depois de usar como ponto de apoio, transmitir como legado de amor! Que título de qualquer valor mobiliário, que metal precioso, que moeda internética permite o mesmo?

 

Dr. Vítor Reis | Director da ESAI

A Mordaz é uma revista criada em quarentena. Na edição de número 2, o Dr. Vítor Reis, Director da ESAI, foi convidado a escrever um artigo. Para aceder ao conteúdo completo desta segunda edição da revista Mordaz clique AQUI.

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